Com chuva ou sem chuva, com sol ou sem sol, defunto ou natal, carnaval ou namorados, não importava, Nonato, o “nana”, nunca deixava de participar do futebol com os amigos. Os dez anos que estava casado, eram os dez anos que sempre foi fiel a esse encontro nas tarde de sábado. Afinal, a fidelidade é tudo nesse mundo.

O Seu Charuk que o diga! Mesmo com as invenções tecnológicas, as performances estéticas, as modas para os fios, Nonato, o “nana”, nunca deixou de cortar o cabelo com o velho turco da Getúlio Vargas. Isso já tinha pra mais de vinte anos, desde o tempo em que o próprio pai o levava ao Salão Santo Antônio, a fim de fazer a barba e reclamar do Botafogo.

Quem visse Nonato, o Nana, com o cabelo candidato a lobisomem, já sabia que algo tinha acontecido com Seu Charuk. Uma viagem, uma doença, uma alguma coisa sei lá, pois Nonato, o nana, não daria seu cabelo à outra tesoura. A fidelidade é tudo nesse mundo, afinal.

Quem também não deixa mentir é o seu Elias, dono de uma média mercearia no bairro em que morava Nonato, o nana. Carnes e frutas frescas, material de limpeza e outras necessidades do gênero, independente do preço, sempre eram compradas lá. Elias trocou as fraudas de Nonato, o nana, além de cumprir outras e demais funções de um titio adorável e gentil.

Araújo, Gonçalves, Pague pouco e outros do ramo? Esqueça, o dinheiro no fim do mês tinha casa e moradia: a Mercearia do titio. Lá e só lá, como uma forma de Nonato, o nana, mostrar o valor da fidelidade.

Para não alongar muito a prosa, o dentista era sempre seu Júlio, o “oculista” era seu Mário, o posto de lavar era sempre o do Barriga, a declaração do imposto de renda era a Dona Cecília e seria sempre o Doutor Carlos, se não tivesse precisado de um psicólogo uma única vez.

Nonato, o nana, era desse tipo. Fiel a seus valores e princípios, acreditava ser um crime só o pensar em se desviar de suas rotinas e amigos.

Esse moço, Nonato, o nana, só não deu esse sabor à esposa, Rafaela, que sempre teve de fingir e esconder não saber das suas aventuras extramuros. Pela natural capacidade dos homens de não saber trair, Nonato, o nana, tinha todos os seus aparentes segredos nos olhos, nariz e na cabeça da mulher.

Resta dizer que a paciência de Rafa não durou muitos anos. Pela natural capacidade das mulheres em trair, com a mesma navalha, cortou seus mais regrados valores. Conheceu também o amor proibido e se acostumou com o cheiro de outros homens.

Assim viveram e se completaram por toda a vida, até o convite final para deixar esse mundo. Nesse lar de cadafalsos morais, labirintos e exercício de memoria diário, Nonato, o nana, só não sabia que na cabeça da mulher ele foi e era por toda vida Nonato, O BANANA.